sexta-feira, 26 de agosto de 2011

AS UTI´S NO BRASIL

Há 40 anos, nasceu a primeira Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Brasil. Em 1971, um grupo de médicos do Hospital Sírio-Libanês, muitos cirurgiões gerais, sentiu a necessidade de organizar uma UTI para cuidar de pacientes graves. Não havia, então, médicos com formação em terapia intensiva no País. Conhecia-se pouco das respostas do organismo às doenças graves, os equipamentos substitutos das funções de órgãos eram limitados e os medicamentos e recursos de monitorização de sinais vitais, escassos. A mortalidade de pacientes internados era muito alta, criando o conceito de que ir a uma UTI era quase uma sentença de morte.


Com o passar do tempo, e de uma forma rápida, a situação foi melhorando. Hoje, os equipamentos para o suporte avançado de vida, ou seja, máquinas que substituem temporariamente a função de órgãos vitais, ventiladores mecânicos e aparelhos de diálise, entre outros, permitem manter os pacientes vivos até a recuperação da condição clínica que os levou à unidade.


Conversamos com o doutor Guilherme Schettino, médico intensivista e coordenador da UTI do Hospital Sírio-Libanês sobre essa evolução.


CartaCapital: Ainda há o mito de que internação em UTI equivale a morte certa?


Guilherme Schettino: Não, as coisas mudaram muito. Avanços médicos e tecnológicos transformaram drasticamente essa imagem. A taxa de sobrevida em nossa UTI, em 2010, foi de 92%. Dos 2.134 que passaram pela UTI, 1.963 receberam alta para continuar o tratamento.


CC: O que fez a grande diferença, comparando com 1971?


GS: Vários fatores ajudaram. Um fator decisivo para a diminuição da mortalidade foi o avanço do conhecimento dos mecanismos básicos das doenças graves. Entender como os diversos órgãos e sistemas respondem a uma agressão, seja ela cirurgia de grande porte, trauma ou infecção, foi essencial para o desenvolvimento de novos medicamentos e estratégias de tratamento. Isso permitiu a muitos médicos se dedicar à terapia intensiva. Temos até subespecialidades no cuidado dos pacientes graves, como o neurointensivismo ou cardiointensivismo. Especialização para o cuidado de pacientes críticos é exigida também de enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, farmacêuticos e psicólogos nessas unidades. A UTI é talvez o local onde o trabalho multiprofissional é mais decisivo.


CC: A tecnologia acompanhou esses avanços médicos?


GS: Avançou muito, mas vale salientar que não há tecnologia que substitua a atuação de um bom time. Tecnologias para monitorar os sinais vitais e avaliar em tempo real o funcionamento dos órgãos, assim como os métodos para diagnóstico, sejam eles laboratoriais, sejam eles de imagem, evoluíram de maneira surpreendente. Hoje, pequenos cateteres permitem, por exemplo, acompanhar em tempo real a pressão, a temperatura e a quantidade de oxigênio dentro do cérebro de pacientes que sofreram um trauma de crânio, permitindo ao médico atuar precocemente quando um desses parâmetros estiver fora da faixa segura. Novos antimicrobianos e, principalmente, estratégias de diagnóstico e tratamento precoces foram decisivos para a sobrevida.


CC: Como se compara, hoje, a terapia intensiva brasileira com a do resto do mundo?


GS: Nossa terapia intensiva não deve nada ao resto do mundo. A UTI do Hospital Sírio-Libanês tem uma parceria forte com o Instituto de Ensino e Pesquisa para o desenvolvimento de pesquisas básicas e clínicas na área de medicina intensiva, contribuindo para a geração de conhecimento nessa área. A análise dos dados dos últimos 1,2 mil pacientes consecutivos que passaram pela UTI do hospital atestou que a qualidade de nossos cuidados equipara-se às melhores UTIs americanas e da Europa Ocidental. Essa baixa taxa de mortalidade mostra que somos prudentes nos critérios de internação na UTI, isto é, estamos internando pacientes com perspectiva de cura, e não pacientes terminais, o que é boa prática para o uso racional dos recursos.



MAL DO SECULO

Sete em cada dez pessoas sofrem ou sofrerão de um dos “males do século”. A cefaléia tensional, ou dor de cabeça associada a estresse, tensão, fadiga ou movimentação e postura inadequadas. Apesar do nome, a causa ainda não está totalmente clara. Freqüentemente associada à contração dos músculos da cabeça e do pescoço, em indivíduos submetidos a situações de estresse, ou de trabalho prolongado em escritório, principalmente ligado a um computador. Dormir em posição não habitual, como cochilar assistindo a um programa na tevê, também pode deflagrar uma crise de cefaléia. Como dores de cabeça são muito freqüentes na população, o diagnóstico correto, e a diferenciação de outras causas mais sérias de cefaléia, podem ser cruciais.



O médico deve se esforçar em descartar, por exemplo, a possibilidade de enxaqueca, importante no manejo desses pacientes. A maioria dos casos de cefaléia tensional aparece, em homens ou mulheres, em idade variando entre 20 e 50 anos. Raramente após essa faixa etária. Esse tipo de dor de cabeça pode se apresentar de forma esporádica, de vez em quando, quando as crises não afetam o indivíduo mais de 15 dias por mês.


Cefaléias mais freqüentes são caracterizadas como crônicas. Alguns aspectos ajudam a desconfiar de cefaléia tensional. O doutor R. M. Pluta descreveu, na prestigiosa revista Jama, sintomas que apontam nessa direção. Para se fazer o diagnóstico, ou a suspeita forte, bastariam dois ou mais dos seguintes sintomas:


1. Dor de cabeça em pressão, não do tipo pulsátil.


2. Presente dos dois lados da fronte, na região temporal ou na nuca


3. Intensidade geralmente leve a moderada.


4. Não piora com atividade física.


A duração da cefaléia pode variar muito, entre meia hora ou uma semana. A diferença mais importante que a separa de um quadro típico de enxaqueca inclui a ausência de náuseas ou vômitos acompanhando o quadro de dor. Por outro lado, fenômenos visuais, muito comuns na enxaqueca, podem estar presentes em pessoas que sofrem de cefaléia tensional.


Desconforto com a luz, conhecida como fotofobia, ou com ruídos, a fonofobia, ocorrem em parcela importante dos doentes. Especialistas alertam, no entanto, que o diagnóstico não é tão simples, e recomendam que pessoas com piora progressiva da intensidade da dor de cabeça, principalmente se associada com febre, procurem seu médico ou um pronto–socorro. Pode não ser uma cefaléia tensional comum. O médico, geralmente um clínico ou um neurologista, deve excluir outras causas graves de cefaléia.


O tratamento da cefaléia tensional é simples, e inclui corrigir ou evitar, sempre que possível, as causas que deflagram a crise, como estresse, fadiga e má postura. Ao mesmo tempo, analgésicos e anti-inflamatórios rotineiros podem trazer alívio ao paciente.


A maioria dos especialistas recomenda também atividades de relaxamento, como yôga, alongamento muscular, meditação e melhora da postura. Mas também deixam recados cautelosos com os medicamentos. Em estudo publicado recentemente na revista Neurological Sciences, pesquisadores observaram que 13% dos pacientes portadores de cefaléia tensional abusaram das medicações, e apresentaram sinais de efeitos colaterais. Sempre que possível, recomendam avaliação e orientação médica para evitar complicações associadas aos analgésicos.